Saúde

Exames mais baratos podem ampliar diagnóstico de sepse em países pobres, aponta estudo internacional
Pesquisa publicada na The Lancet Regional Health – Western Pacific mostra que sistemas alternativos de hemocultura têm desempenho semelhante aos líderes globais, com custo até quatro vezes menor
Por Laercio Damasceno - 02/01/2026


Domínio público


Um dos exames mais decisivos para salvar vidas em casos de sepse — infecção generalizada que mata milhões de pessoas por ano — pode estar prestes a se tornar mais acessível fora do eixo dos países ricos. Um estudo internacional publicado nesta semana na revista The Lancet Regional Health – Western Pacific conclui que sistemas alternativos de hemocultura, desenvolvidos na China, apresentam desempenho comparável aos equipamentos considerados “padrão-ouro” no diagnóstico de infecções na corrente sanguínea, com custos significativamente mais baixos.

A pesquisa avaliou, ao longo de nove meses, mais de 37 mil frascos de hemocultura em cinco hospitais terciários da província de Zhejiang, comparando equipamentos e insumos das multinacionais Becton Dickinson (BD) e bioMérieux com alternativas produzidas pelas empresas chinesas Meihua Medical (MH) e DL-Biotech (DL). O resultado: taxas de concordância acima de 96% entre os sistemas, com tempos de detecção semelhantes para as bactérias mais associadas à sepse.

“A mensagem central é que existem alternativas viáveis, robustas e muito mais acessíveis para diagnosticar sepse”, afirma Rong Zhang, do Hospital Afiliado nº 2 da Universidade de Zhejiang, um dos autores principais do estudo. “Isso pode mudar o cenário em países onde o exame simplesmente não é feito porque custa mais do que o próprio tratamento.”

Um gargalo histórico no Sul Global

A sepse ocorre quando o organismo reage de forma descontrolada a uma infecção, levando à falência de órgãos. O diagnóstico rápido depende, em grande parte, da hemocultura, exame que isola bactérias ou fungos no sangue e orienta o uso correto de antibióticos. Nos países de alta renda, esse teste é rotina. Em grande parte da África, da Ásia e da América Latina, não.

Figura. Fluxograma da avaliação de instrumentos e frascos de hemocultura em cinco hospitais. Hospital 1: Hospital Jinhua, afiliado à Faculdade de Medicina da Universidade de Zhejiang; Hospital 2: Segundo Hospital Afiliado da Faculdade de Medicina da Universidade de Zhejiang; Hospital 3: Quarto Hospital Afiliado da Faculdade de Medicina da Universidade de Zhejiang; Hospital 4: Hospital Dongyang, afiliado à Universidade Médica de Wenzhou; Hospital 5: Primeiro Hospital Afiliado da Faculdade de Medicina da Universidade de Zhejiang.

“O paradoxo é que, em muitos países de baixa e média renda, os antibióticos custam menos do que o diagnóstico”, explica Timothy R. Walsh, coautor do estudo e pesquisador do Instituto Ineos de Pesquisa em Resistência Antimicrobiana, da Universidade de Oxford. “Isso leva ao uso empírico e prolongado de antibióticos, o que piora os desfechos clínicos e acelera a resistência bacteriana.”

Historicamente, o mercado global de hemocultura foi dominado por poucas empresas multinacionais, cujos equipamentos podem custar entre US$ 48 mil e US$ 58 mil, com frascos descartáveis que chegam a US$ 6 por unidade. Segundo o estudo, os sistemas alternativos avaliados custam menos de US$ 15 mil, com frascos na faixa de US$ 1,40 a US$ 1,50.

Desempenho clínico comparável

O trabalho combinou testes laboratoriais controlados — com amostras “inoculadas” artificialmente — e um grande estudo observacional com pacientes reais suspeitos de infecção na corrente sanguínea. Foram analisados tanto o tempo até a positividade (quanto tempo o sistema leva para detectar o crescimento bacteriano) quanto a capacidade de detecção de patógenos relevantes, como Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae e as chamadas bactérias ESKAPE, associadas a infecções hospitalares graves.

Nos testes clínicos, os sistemas MH e DL alcançaram taxas de concordância entre 96,5% e 98% quando comparados aos equipamentos da BD e da bioMérieux. Em alguns cenários, o sistema MH chegou a detectar mais isolados bacterianos do que os concorrentes tradicionais, embora tenha apresentado menor sensibilidade para bactérias anaeróbias.

“Diferenças pontuais existem, como em qualquer tecnologia diagnóstica”, diz Zhang. “Mas, do ponto de vista clínico, os resultados mostram equivalência suficiente para uso seguro, especialmente onde a alternativa é não ter diagnóstico algum.”

Os autores destacam que a adoção desses sistemas pode ter efeitos que vão além do diagnóstico individual. Ao permitir a identificação do agente causador da infecção, a hemocultura orienta o uso adequado de antibióticos, reduz internações prolongadas e fortalece políticas de controle de infecção hospitalar.

O tema ganha relevância num momento em que a resistência antimicrobiana (RAM) é tratada como emergência global. Em 2024, a ONU aprovou uma declaração com metas para reduzir mortes e o uso inadequado de antibióticos. Para Walsh, ampliar o acesso ao diagnóstico é condição básica para cumprir esse compromisso.

“Não se combate resistência antimicrobiana sem diagnóstico”, afirma. “Tecnologias mais baratas e compatíveis com sistemas já existentes podem ser um divisor de águas.”


Limites e próximos passos

Os próprios autores reconhecem limitações. O estudo foi conduzido em hospitais terciários chineses, e os resultados precisam ser confirmados em outros contextos, especialmente em países de renda mais baixa, com infraestrutura laboratorial limitada. Também não foram avaliados fatores como durabilidade dos equipamentos e facilidade de uso em ambientes com menos recursos técnicos.

Ainda assim, especialistas veem o trabalho como um marco. “É a primeira grande avaliação clínica prospectiva desse tipo”, diz Walsh. “E mostra que inovação em saúde global não precisa, necessariamente, vir dos países mais ricos.”

Se confirmados em outros cenários, os achados podem ajudar a reduzir um dos abismos mais persistentes da medicina contemporânea: o acesso desigual ao diagnóstico de doenças potencialmente fatais. Em sepse, como lembra a literatura médica, tempo é vida — e, agora, talvez também seja custo.


Detalhes da publicação
Avaliação de sistemas alternativos de hemocultura na detecção de bactérias patogênicas: um estudo observacional prospectivo multicêntrico. The Lancet Saúde Regional – Pacífico OcidentalVol. 67 101806 Publicado: 1 de fevereiro de 2026 - Yanyan Hu, Yin Fei Fang, Zelin Yan, Zhiqiang Zhu, Sol Qiaoling, Sipei Wange outros -DOI: 10.1016/j.lanwpc.2026.101806Link externo. Também disponível no ScienceDirect

 

.
.

Leia mais a seguir